sábado, dezembro 23, 2006

O Encontro

Havia um Poeta e sua Musa,
Encontravam-se perdidos
Dentro de uma noite fria.
Ambos se desconheciam,
Amargurados, ainda sonhavam.
Amavam-se em silêncio,
mesmo sem se conhecerem.
Olhando o firmamento
Na insana busca pelo Amor.
Em lentos passos à noite,
Caminhavam por ermos caminhos
Já sem saber o que esperar.
Perguntavam-se até aonde
Sofrer pela espera é digno.
Pois quem aguarda firme
Será recompensado regiamente,
Desde que agüente a agonia
Lenta e gotejante do tempo.
Tantas súplicas e lamentos
Ambos lançaram aos céus
Apenas tendo Deus como testemunha...

Um acaso fortuito!
Pela primeira vez
As duas almas sôfregas
Tomaram-se conhecimento.
A Musa tinha o seu Poeta,
O Poeta alcançou a sua Musa!
Em uma fria noite de inverno,
Dedos trêmulos de emoção
Tatearam-se pelas trevas do medo.
Indecisão...
Após tanto tempo,
O coração encontra-se endurecido,
Recoberto de cascas de mágoa,
Camadas e camadas de desilusão.
"Não quero machucar-me...
Mas será?" - em suas mentes badalava
Dividindo corpo e alma,
Que já se encontravam partidos.

A Musa e seu Poeta;
O Poeta e sua Musa.

Ambos eram apenas silhuetas,
Éter que vagava pelas fileiras,
Entoando frases fragmentadas
Movidos por sentimentos diversos.
Até aonde vai o sonho?
Quando acaba a realidade?
Esta é a resposta esperada,
O grande momento chegou.
Mais uma desilusão
Para somar a tantas outras.
Qual caminho seguir?

Assim continuava o casal,
Rodopiando por salões iluminados
Em meio à brumas e névoas,
Em frenética espiral,
Num torvelinho de sentidos,
Palavras perdidas
Lançadas ao vento,
Esparsas no céu
Como pipas sem dono
Sem saber aonde ir.

Passaram a viver num mundo de magia,
Terra do Faz-de-Conta, Terra-do-Nunca,
Como se apenas isto bastasse,
Espantou-se para longe a realidade.
A Musa e o Poeta; o Poeta e a Musa...
Não houve mais como adiar.
Era o momento de materializarem-se,
Dar-se a ver um ao outro,
Para que se assim fosse
A profecia se concretizasse.
Quando por fim conheceram-se,
Após tantos momentos de magia,
O encanto criado pelo tempo,
Por palavras belas e frugais,
Lançadas volúveis ao ar
Em lindos anéis de fumaça,
Esculturas de nuvens ao vento.

Meu Poeta...
Minha Musa...

Assim foi o primeiro olhar,
Derradeira visão deste Amor,
Alicerçado sobre o ar,
Este belo castelo de marfim,
Qual mais frágil cristal,
Ao impacto da realidade,
Estilhaçou-se.
Seus reluzentes cacos
Espalharam-se pelo piso
E por lá ficaram.
Lembranças que ninguém quer levar,
Ficam ao tempo expostas
Até que o tempo as enterrem.

Musa...

domingo, dezembro 10, 2006

Lágrimas dos Anjos

Tão bela é a chuva a cantar,
Arrastando nas águas, alegria e mágoa.
Enquanto as gotas do céu caem,
Lagrimas pungentes dos Anjos,
Atravessando o ar, numa intensa cantoria.

Os pingos no rosto combalido explodem,
Numa delicada e sutil carícia feminina,
Lavando nas águas as lágrimas,
Enquanto suavemente escorrem sonhando.

Crianças nas poças brincando,
Com os Querubins que do Céu caem,
Juntnado-se aos alegres folguedos,
Dos pequenos anjos sem asas.

O murmúrio das águas,
Canção de ninar de Deus,
Chuva que traz vida
Mesmo após a destruição.

O batuque nas latas cheias,
Percussão ás angelicais vozes,
Das gotas cantantes celestes,
Alegres e de vida efêmera.

Adultos sérios e tolos,
Não ouvem a chuva cantar
Nos pobres telhados das casas,
Enrijecem o coração à Alegria.

Tão bela é a chuva a cantar...
Tão bela é a chuva...
Tão bela...

Solidão

Lamentos silenciosos
Cercam o coração poético.
Angústia, dor pungente,
Fria como mais vil punhal.

Criatura das Sombras,
Teu ser às Trevas pertence;
Teimas sempre , não compreendes?
É tua sina sozinho viver.

Quanto mais terás a pagar?
Até tua vida entregar?
Aceitas resignado teu destino,
Se para isto viestes a nascer.

Segue a senda dos solitários,
Desistes desta idéia de alguém ter.
As Amadas que tanto buscas
São apenas sonhos, a se perder.

Palavras perdidas

Anos atrás, num viés poético,
Disse eu que a poesia silenciava,
A carreira do trovador findava;
Pura bazófia do poeta!

Se isto faz parte,
Intrínseca, desta alma tosca,
Somente ela cessará
Quando eu deixar de respirar.

Pois que meu vício
São estes versos tortos,
Trôpegos de vinho,
Brumosos de cigarros.

Isto lembra-me, fugazmente,
Todo Poeta é grande fingidor.
Pois que eu não bebo e ojerizo o fumo,
Mas insisto, como muletas, usá-los.

Velas na noite

Ah, bela mortalha me envolve,
Nesta capela em penumbra;
Somente velas bruxuleantes
Dão tênue luz ao ambiente.

Já aqui estiveram, a me olhar,
Todos os que ainda se importavam,
Talvez até mesmo os curiosos.
Olhares compungidos de compaixão,
A este podre diabo no esquife.

Breve serei somente lembrança,
Um monte de ossos sob a terra,
Sem nenhum verme para ler
As derradeiras palavras do poeta.

Nesta alta madrugada estrelada,
Nem mesmo o vigia vela-me.
O velório segue fúnebre.
Até nesta hora sou solitário.

O único sorriso deste dia, talvez,
É aquele que estampado mostro,
Desde o momento final,
Quando a bala o coração perfurou.

Questões

A felicidade tem sabor doce,
Apenas para amargar mais a tristeza.
Assim, nos momentos de desespero,
Ao lembrar da alegria, enlouquecer.

Quando a dor mais incomoda
Teimo em perguntar-me:
Se realmente tudo vale a pena,
Até mesmo chorar por você.

Tantas noites mal-dormidas,
Sono fugaz e tenebroso.
A tranquilidade frágil
Do descanso inalcançado.

Por que têm lábios quentes,
Num coração tão mesquinho?
Sentir o sabor do paraíso,
Para a eternidade no Inferno viver.

domingo, novembro 26, 2006

Alegria

Rainha deste coração poético,
Soberana em meus poemas,
Absoluta em todas as odes,
Sempre compostas para ti.

Em meu reino de sombras,
Do céu cinzento e chuvoso,
É o Sol luminoso e brilhante
Que traz alegria e vida.

Querida Musa, Amada,
Que em sonhos acalento,
Espantando tudas dores
Assim como fazes às minhas.

Deixa-me ser teu consorte,
A honra de desposar pela eternidade,
A mais bela de todas as Damas,
Das íris da cor do bôrdo outonal.

Teus olhos são meu refúgio,
Descanso de teu Trovador
Fustigado pelas intempéries do amor,
Renovo minhas energias.

Que meus versos sejam bálsamo,
Das angústias que te afligem.
E meu coração teu abrigo,
Nas horas de tempestade.


Amada, sabes que este poema é somente teu...

Vida mortal...

O momento do colapso chegou,
Um coração que bate apaixonado,
Por tantos anos sem fim, à toda,
Ao fim da jornada, está exaurido.

Em meus olhos, o teu reflexo,
Imagem perene do amor,
Indelével no momento da dor,
Sei que estás aqui comigo.

A vida rapidamente se esvai,
A lua argêntea, melancólica,
Observa esta morte, altiva,
Imune ao sofrimento...

Em minha mãos cadavéricas,
Seus dedos finos e calorosos.
Beijo-os pela última vez,
Com os olhos, de lágrimas, turvos.

Teus cacheados cabelos,
Dissolvem-se com teu rosto.
A alvura tudo envolve,
Apenas restam-me sombras.

Último suspiro deste poeta,
Pecador por tanto amar.
Numa noite de primavera,
Ao lado da Amada, meu coração parou.

Perdição

Ao lado de teu corpo imóvel,
Quando as sombras já se aproximam,
E a vida, lentamente, te abandona
Esfriando teu corpo e turvando os olhos.

Estás junto ao chão de pedras,
Com as órbitas imóveis, ao longe,
Mas sabes que alguém chegou,
Para assistir teu sofrimento.

É teu derradeiro momento,
Vê Deus ou anjos a te esperar?
Ou será que as chamas infernais
É que irão te receber com gala?

Pouco importa-me quem te espera.
Apenas quero ver de bem perto,
Teus últimos estertores e suspiros,
Acompanhar esta lenta agonia.

Quero que a última imagem,
Gravada em tua retina pétrea,
E que carregarás pela eternidade,
Seja de meu sorriso ao ver tua morte!

À Caçada!

Chore coração tolo e simplório,
Que cai de amores pelas Musas,
Mesmo sabendo que são intangíveis,
São seres do éter, não de matéria.

Agora, a desilusão ronda
Como coruja agourenta,
Com seu pio de horror
Leva consigo todo o alento.

Verta esta dor, converta-a em pranto,
Deixe as lágrimas, livres, rolarem.
Umideçendo o solo seco e estéril
Deste coração ingênuo e bobo.

Fugir! Para as cavernas mais fundas!
Não adianda tentar escapar.
Nem mesmo na rápida morte,
O Acusador me aliviará.

Não existe pior caçador,
Lobo faminto ou coiote assassino,
Que se iguale em fúria matadora,
Às cobranças de meu próprio eu.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Ventos

Enquanto meu coração lágrimas verte,
E o mundo continua sua viagem pelo espaço,
As horas amontoam-se numa montanha,
Já não há mais quem a todas conte.

Os mesmos ventos que trazem a alegria,
Em fúrias colossais, deixam destruição.
Enquanto tenho meus ossos removidos,
Escuto os uivos da felicidade pelas frestas.

A vida oscila num pêndulo num poço,
Onde cada segundo é um êxtase,
Cada momento é preenchido pelo terror,
Permanece apenas o vento e sua essência.

Viajante de toda a Terra,
Indo de um pólo ao outro,
Conhece bem aos humanos,
E todas as suas míseras dores.

Ele, que nada ao menos sente,
Nem nos tenta entender,
Com nossas manias e temores,
Trejeitos, orações e mandigas.

Os brados de desespero e agonia,
Gritos de felicidade e alegria,
A todos do mesmo modo trata,
Conduzindo-os incompletos pelo ar.

Ventos que a todos conhece,
Realmente não os invejo.
Prefiro passar pelas mil aflições,
Do que nunca saber o que é um sorriso.

Motivação

Aos poucos escurece,
Este lindo dia de sol adormece.
Volta-se para noite de mistérios,
Das brumas densas e brisa gélida.

Coração solitário vagueia
Pelas ruas ermas e desertas,
Sua busca inglória não cessa,
De tentar amar não desiste.

A melancolia no ar circula,
Deixando densa a atmosfera.
A esperança morre na agonia,
Carcomida como pelo câncer.

Noturno espírito errante,
O que tanto desejas para,
Durante toda a tua vida,
Em meio as decepções, não desistir?

Tua Amada vive em sonhos,
Não há espaço no mundo real,
Para que nele vivam Anjos,
Consolando os que amam demais.

Nesta terra de desterro,
Em meio as tribulações,
Temos apenas uns ao outros,
E na fortaleza de Deus para nos apoiar.

Nada disso que escrevo,
Estas linhas neste papel virtual,
Farão desistir de sua procura,
Alma destinada a Amar.

segunda-feira, outubro 16, 2006

O Novo

Toda mudança traz dor.
Coisas antigas que morrem,
Para chegada do novo.
Não importa o quanto demore,
Descendo pelas montanhas,
Qual enxurrada, violenta e mortal,
Rolando as pedras, arrancado as árvores.
Remodelando o relevo,
Levando para sempre o velho,
Ficando apenas as lembranças.

O Novo sempre chega,
Trazendo a renovação.
Para a vida continuar,
Recomeçar e ressurgir.
Mesmo se tudo parece perdido
Os amores, mortos estão,
Há esperança de Ressurreição.

Chega a Primavera, com ela a renovação!

A primavera chega com suas flores e amores,
O ar está perfumado de novidade.
Até este recanto ermo e solitário
Sente o sopro fortedas mudanças.

domingo, outubro 15, 2006

Passado presente

Da série relembrar é viver. Esta poesia foi postada pela primeira vez em abril de 2003 e continua atual, infelizmente.

Tão bela é a vida e o viver,
Que não entendo o pouco valor
Que a eles se dá.

Pois, somos caçados,
Vítimas de outras vítimas,
Nessa cidade insana,
Desejosa de sangue.

E as balas nos esperam
A cada esquina que se dobra,
Como nosso nome gravado
No seu chumbo quente.

Mas quem não tem esperança,
Achando que a vida não teve direito,
Querendo o lucro fácil
Numa multidão de miseráveis.

Coloca uma arma como talismã,
Na cintura ou a tiracolo.
Agora ele é um Homem,
Sobressaindo-se entre todos.

Porém, a bala que tem o meu nome,
Profundamente gravado,
Tem uma irmã desgraçada
Marcada com seu nome.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Ich bin der Atem auf deiner Haut,
Ich bin der Samt um deinen Körper,
Ich bun der Kuss in deinem Nacken,
Ich bin der Glanz auf deinen Wimpern.

Ich bin die Fülle deiner Haare,
Ich bin der Winkel deiner Augen,
Bin der Abdruck deiner Finger,
Ich bin der Saft in deinen Adern,
Und Tag für Tag durchströme ich dein Herz.

Lichtgestalt, in deren Schatten ich mich drehe...


A quem se der o trabalho de ler este post, comunico que trata-se do trecho de uma música. Infelizmente ainda não sei alemão suficiente para tentar compor algum verso no idioma de Goethe. Trata-se de Lichtgestalt, do álbum homônimo do Lacrimosa.
Num próximo posto as poesias voltam...

domingo, setembro 03, 2006

Ébrio

Neste copo de vinho tinto
Perco meus sentimentos,
Anestesio minhas dores,
Esqueço tristes amores.

Não sei porque a bala
Alojada neste tambor
Ainda não foi deflagrada,
Para o aço o coração cortar.

O que andava pelas noites,
Coberto pela capa do romance.
Aos pés das Amadas ajoelhava-se,
Queria estar morto e enterrado!

Nas ondas do álcool e do fumo,
Quero desperdiçar minha vida.
Esta alma torpe que só quis amar,
Encontrou decepção em todo lugar.

Agora a madrugada me alcança,
Meu corpo é consumido vivo,
Coberto de moléstias e chagas,
Como sempre foi minha alma.

Turbilhões de sensações...
Tonto e trôpego despeço-me.
Não venham-me visitar,
Neste jardim das almas perdidas.

Ossos

Os anos passam rápido,
Aqui continuo como sempre,
Tal louco apaixonado
Sem ver quão perto o amor está.

Em minha vida pouco importa,
Minhas pegadas são apagadas,
Pela brisa quente do verão
Após cada nevasca de inverno.

Meus ferimentos do coração
Doem muito, mas nada significam.
Existência sem sentido algum,
Apenas caminha e caminhar.

Triste desfecho para alguém,
Do qual o mundo muito esperava.
Aqui nesta terra nada mais sou,
Apenas sombra e miséria.

Meus ossos brancos secam,
Neste deserto urbano.
Sou apenas mais um cidadão,
Perdido no mar da solidão.

Topázios

Olhos de topázios faiscantes,
Cegam-me de ilusão torpe.
És uma feiticeira muito charmosa,
A teus encantos não resisto.

Atrae-me sempre, mais e mais,
Como magnetos permanentes
Puxando meu coração sofrido
Para a beira do abismo.


Minha sombras hoje estão mais densas,
Olho firme no horizonte desta praia deserta.
Esperança de tempo bom ainda carrego,
Mas sei que virá grande tempestade.

Dá-me teu colo acolhedor,
Preciso sentir-me seguro.
Só assim enfrentarei o destino,
Rumo ao medonho futuro.

Descubro-me tão frágil e fraco,
Como cerâmica malfeita.
As rachaduras na armadura
Já são mais que visíveis.

Hoje eu preciso de um abraço,
Para que a paz me encontre
Elimine essa incerteza amarga,
Que alojou-se definitiva no peito.

Acolhe-me em teus braços macios,
Dize-me que tudo ficará bem
Em delicados sussurros ao meu ouvido,
Evite assim que as trevas traguem-me.

Se hoje eu lágrimas verter,
O guerreiro também chora,
Quando sente-se mortal e ferido,
Portanto não assusta-te se ocorrer.

Apenas acompanha-me nesta viagem,
Deixa-me segurar firme tuas mãos finas.
Dá-me mais este instante de amor
Antes que eu venha a morrer...

Derrotado

Olha em meus olhos tristes,
Que a querem ainda tanto,
As lágrimas de dor e amargura
Que tanto busco afogar nesta bebida...

Veja quão baixo desce um homem,
Perdido nas agruras da paixão,
Perambulando sem destino,
Entre a loucura e a lucidez.

Este ser rastejante e asqueroso,
Um dia já foi altivo e garboso.
Mas a seta envenenada do cupido,
Atirou-me sem dó ou piedade na miséria.

Observe como eu cada vez mais caio,
Rumo ao fundo inalcançável do abismo,
Dormindo ao relento e ao sabor das estrelas,
Pois nada mais me importa ou vale.

Por favor não tenha compaixão.
Exijo que se afaste agora e para sempre,
Guarde na memória permanente
A imagem deste que já foi o seu trovador.

Não derrame suas preciosas lágrimas,
Com este verme ébrio e sujo.
Guarde-as em seu coração tenro,
Para, em meu marmóreo sepulcro, vertê-las.

domingo, agosto 27, 2006

Deslocado

Mundo estranho é este...
Os dias são sombrios e tristes,
Apesar de muitos ainda sorrirem,
Numa alegria convulsa e infeliz.

Nada mais importa nesta vida niilista.
Aproveite ao máximo que puder,
Cada um por si e que vença o pior,
Nesta seleção natural emmeio à civilização.

Não o tolero, nem o aceito.
Não professa de mesmo credo que eu,
Sua música é barulho para mim.
Por que tenho de dividir o meu espaço?

O que eu quero é o que é seu,
Para somar mais ao meu,
Guardar numa torre de prata
Para que sintam inveja de mim.

Este é o prazer orgiástico
Da existência pós-moderna,
Aonde Deus virou um entulho
E como tal é jogado fora todos os dias.

Caminhe junto comigo e ao meu lado,
Neste último beijo antes da hecatombe,
Rumamos rapidamente para a destruição,
Em meio ao caos urbano e social.

O tecido da sociedade já é um trapo,
Mal cobrindo o corpo das cidades,
Desnudas, miseráveis e famintas
Vendem-se em cada esquina...

As inovações tecnológicas
Que deveriam trazer o bem,
Aprofundam o abismo
Selam o destino que advém.

Nunca fomos tão ricos,
Nem houve tantos pobres.
Com fome de pão, cultura,
Da beleza e do carinho.

A humanidade fica feia
Sua obras, horrendas.
Tentamos romper a qualquer jeito
Os últimos laços com o Criador.

sexta-feira, agosto 04, 2006

És tu?

Será que eu te encontrei Amada?
És tu mesmo quem eu vejo,
Atravessando as brumas,
Trajada de rainha e de cabelos louros?

A solidão faz muitas vezes delirar,
Entrar em realidades alternativas,
Que não desejo nunca abandonar,
Assim vivendo em falsos sorrisos.

Mas não, desta vez eu a vejo mesmo.
Estes velhos olhos não se enganam,
Pelo menos não tão mais fácil como antes.
Quem eu vejo realmente é uma Princesa.

Vem e abraça-me, deixa-me fazer-te feliz.
Completar este pedaço que te falta,
Com este incompleto de minha alma.
Deixa-me fixar os olhos para crer!

Aproxima-te deste louco Trovador,
O romântico sofredor que tudo abandonou,
Para buscar-te, nem que fosse além da morte.
Tocar tuas delicadas mãos e sonhar...

Levar-te numa viagem de letras e amores,
Que não será efêmera ou fugaz;
Durará eternamente, pois és quem eu busco,
Há anos por essas andanças no mundo.

Venha logo, atravesse o denso nevoeiro,
Deixe-me acalentá-la em meus braços,
Cobrir-te de carinho e amor,
Enquanto sussurro versos dedicados a tu!

Deixa-me sentir teu aroma único,
Inigualável, elaborado por Deus em pessoa;
Guardar na memória estes momentos,
Para que eu nunca os perca.

Deixa-me ser teu amigo, guardião e confidente.
Em todos estes anos de espera, quase sem lucidez,
Na prisão da amargura, prendia-me nestes instantes,
Que deixam de ser sonhos para vir a serem reais.

Flores

Recebe nestas flores meu coração,
Este ser incompreendido e sofredor.
Ele deseja tanto fazer-te feliz...

Neste buquê ele vai acompanhando,
É uma criança, só precisa de atenção;
Entrego-lhe como derradeira oferta,
Deste poeta que nada mais possui.

Aceite-o, isto lhe peço.
Mesmo que ao ver-me afastar-se,
Na lixeira mais próxima o despeje,
Junto com as rosas e os versos.

Sofrendo e puído ele já está,
Talvez na escória seja seu real destino.
Mas ele tem pensamentos nobres,
Dá-lhe, por instantes, alguma ilusão!
Esta é mais uma noite,
Todas solitárias e vagas.
Busco compreender-me,
Encontrar a Amada,
Encerrar meu ciclo de poesia louca.

Já não sei se quero
Essa vida deixar,
A dor nos acostumamos
E passamos a cultivá-la,
Como algo de estimação.

Talvez um dia eu desejasse,
Que essa busca terminasse,
Que minhas lágrimas não desperdiçasse.
Mas hoje? Após tantas agruras,
Surfo nas ondas do sofrimento;
Faço chover na cidade com meu pranto.

Ninguém as recolhe, exceto os Anjos.
Elas escorrem regularmente,
Nas noites silenciosas e frias.
Além de cacos de meu coração,
Meu rastro é feito de lágrimas.

São estrelas cintilantes no piso,
Ao serem iluminadas pelas do firmamento.
E quando as Fúrias chegam,
Vejo-me no centro da tormenta.
Minha alma carrego pelo mar tenebroso,
Arrenego-me a desistir deste caminho.

Contudo, quando as ondas baixam,
Vem a calmaria duradoura,
De beleza extática e imóvel.
Neste momento me sinto mais só,
Olhando para o horizonte,
Melancólico e soturno.

Espero o sol raiar nas ruas,
Muitas pessoas já passam.
Sou invisível a elas, ocupadas e humanas;
Não sentem nem mesmo a presença
Etérea deste poeta fantasma.

segunda-feira, julho 10, 2006

Gostaria que me visses agora...
As lágrimas que derramo nesta noite insone,
Cada uma é um verso em tua homenagem,
Àquela que amo sem conhecer.

Neste quarto escuro e abafado,
Meu alojamento de descanso
Nesta viagem inglória e vã,
Tua imagem vejo sobre minha retina cansada.

Meus olhos vermelhos de pranto,
A alma retorcida de saudade
Por alguém apenas de sonhos,
Que habita em minha imaginação.

Pois de ti tenho apenas indícios,
Um perfume, uma silhueta fugaz,
Um corpo etéreo e sem limites.
Por que te amo tanto, Amada?

Já não tenho mais as Fúrias,
Nem tempestades me assolam.
Tenho a agonia melancólica,
De ter passado nesta vida em vão.

Pois não te tenho aqui comigo,
Neste momento desesperado,
Em que eu clamo por ti às estrelas,
Rasgando o silencioso céu noturno.

Febrilmente escrevo linhas e linhas,
No afã de aliviar este peso de não te ter,
De assim tê-la por perto, mesmo por compaixão.
A cada minuto mais te desejo e necessito.

Perdoe meu comportamento obsessivo,
Contudo os anos estão passando rápido
E ainda não te encontrei, aflijo-me.
Cada instante é uma tortura de espera.

Apenas quero tua companhia...
Para envelhecermos juntos e em família,
Poder saciar teu coração, enquanto sacias o meu.
Apenas isso que peço a cada dia.
Hoje a noite está mais sombria,
Ando pelas ruas mais perdido.
No coração apertado pela dor,
A melancolia consome todo o calor.

Desde o dia que me renunciei,
Entreguei-me nesta insanidade,
Cada vez vejo-me mais solitário,
Sorvendo, sôfrego, o fel do abandono.

A cada amargo gole, a cada lágrima perdida,
Em cada lasca de coração deixada para trás,
Em cada ilusão romântica que me perco,
Estou mais distante de ti, amada musa...

Minhas palavras estão se esgotando,
No ritmo que minha vida se esvai.
Esta ferida na alma que não cicatriza,
Neste rastro de sangue e amor que deixo.

Parece-me que mais distante estás,
Quanto mais tento encontrar-te.
Meu corpo está cansado e fraco,
Em noites insones de vinho e poesia.

A poesia ardente, é cinza e escória,
Resíduos do consumo desenfreado
Em busca daquela a quem as trovas pertencem.
Apenas colho o sussurro do vento noturno.

Nos becos silenciosos, vagam os perdidos.
Nestes tu não estás, nem nas sacadas vazias,
De casarões vitorianos de sonhos,
Que povoam minha cidade irreal.

Agora é tão tarde para voltar...
Tantos já se foram, partiram sem nada dizer.
Há tanto tempo estou nesta estrada,
Que nem mesmo sei quem sou...

Apenas continuo acordando a cada noite,
Com o meu amor magoado e triste,
Tentanto em vão te buscar, Amada,
Porque para casa não sei mais voltar...

segunda-feira, maio 01, 2006

O estampido ecoa pelo quarto,
Reverbera pelas paredes da casa.
Meus olhos cansados e vermelhos,
De água enchem-se na saudade.

O tempo agora avança,
Não mais aquela agonia
De gotejar de minutos
Num balde cheio de horas.

A carne queima numa auréola
Tinta de rubro intenso.
As musas de sonhos me consolam,
Neste derradeiro momento.

O ar metálico e fumacento
Enchem-me os pulmões afogados.
Nos lábios um sorriso de despedida,
Sobre a mesa as últimas poesias perdidas.

Minha mente voa para longe,
Atingindo infinitas aturas,
No silêncio da noite ensangüentada,
Com as batidas descompassadas do coração ferido.

As lembranças se esvaem
Na dor perfurante e fria
Que meu corpo atravessa,
Num faiscante raio de luz.

O adágio que é minha vida
Encerra-se com notas melancólicas,
Numa existência vazia.
Tudo perdeu o sentido.

Na esperança do perdão divino,
Pais perdoem-me por ter falhado;
Senhor da misericórdia, ouve o meu lamento,
Em tuas mãos entrego meu espírito.

sábado, março 04, 2006

Poeta, Poeta, Poeta...
Tua pena é movida a dor.
Quando está feliz,
Nada mais te inspiras.

Mas, quando te vês na tempestade,
Sabes que irás sofrer,
Discernível é então o sorriso maroto
No teu coração masoquista.

És um escultor do sofrimento,
Esta matéria bruta e áspera,
A entalhas abnegada e arduamente,
Transformando-a em beleza e lirismo.

Se passas por camaria,
Tua embarcação vacila e não segue;
Preferes os mares revoltos e encapelados,
Trovões e raios te servem de sinfonia.

És desbravador do agreste sofrer,
Navegando caudalosos rios de pranto.
Descobres novos e ignotos recantos
Na alma escondidos pelas bonanças.

Tu és o fazendeiro da seca,
Dos períodos de morte e fome.
Pois nas épocas de chuvas e flores,
Nada consegues produzir a contento.

Qual verme na carne morta,
Transformando para que a vida continue,
És tu, poeta sofredor, chafurdando
Nas feridas das veredas do amor
Traze-me de volta a paz.
Para que eu volte a sorrir,
Mesmo quando sou desossado
E minha pele é posta para secar.

Mergulha meu espírito na tranqüilidade,
Leva-me de volta À tenra idade.
Quando os sonhos ainda estão verdes
Com promessas de serem saborosos.

Afasta-me deste venenoso fel
Que sorvo todos os dias;
Tal qual como ontem,
Amanhã ainda beberei.

Minha alma assim embebida
Neste líquido letal
Morre um pouco a cada dia,
Renascendo a cada manhã.

Por que de Prometeu a mesma sentença?
O pavor de morrer e viver
Pela eternidade sem fim,
Por pior que eu seja, não mereço sofrer.

Despedaçado espírito
Que ainda move esta carne impura,
Por que não desiste desta cruzada,
Para finalmente me deixar apodrecer?
Que desejas de mim?
Pobre alma sofredora,
Fenece a cada desilusão
Resnasce a cada ilusão.

O jogo de viver e morrer
Cansa até o mais guerreiro.
Que nas rochas busca abrigo
Quando as pernas já não lhe aguentam.

O que pretendes?
Nesta luta de luz e sombra,
Sinto-me peça de xadrez
Sem noção de meu papel.

Serei o Rei, fraco;
Ou o bispo, articulador?
O cavalo ágil e veloz,
Ou a torre sólida e letal?

Não... Sou um reles peão,
Neste tabuleiro do tamanho do mundo,
Que no jogo eterno da vida
Sabe apenas avançar e avançar.

Sempre para frente, sem pensar ou vacilar.
Move-me o sonho de chegar
Na última casa ainda vivo,
Para finalmente glorioso atacar.

Mas enquanto o momento não chega,
O derradeiro instante não acanço.
Pergunto-me sempre: Que desejas de mim?
O que pretendes? Até aonde minha vida vai chegar?
Criatura das sombras,
Habitante das brumas.
Um coração em brasa,
Numa alma cinzenta.

Envolto em mistérios,
Becos sem saída,
Em jogos mentais e psicológicos,
Envolve sem nunca se envolver.

Perdido nas trevas,
Caminha por recantos ermos,
Arrastando as correntes
Em lúgubres corredores.

Grita de dor pelas lanças
Atravessadas pelo corpo
Carcomido de tristezas,
Chagado pelos amores.

A lâmina fria e afiada,
Pela pele abrindo sulcos,
Marca definitivamente
Nos tecidos os nomes das amadas.

Uma míriade de musas,
Infinitas deusas de meu universo,
Absorvidas na densa neblina
Eternizadas no meu espírito.

domingo, janeiro 29, 2006

HáHáHáHá!
A loucura a cada dia possui-me mais!

Ah, amada apaixonada,
Dá-me teu corpo volátil,
Puro vapor etéreo.

Em troca leva minha alma vadia,
Que busca amores nos luares,
Felicidade em balcões iluminados.

HáHáHá!
Venha loucura, que este coração já é teu!
Hoje tão forte chove,
Nas gotas teu rosto reflete.
Não são lágrimas nem pranto,
Apenas chuva mesmo.

As luzes da cidade se acendem,
Espantam as sombras que as nuvens trazem.
A humanidade se encolhe na tempestade,
Medo primitivo que aflora na pele.

Pelos vidros respingados,
Da janela de teu quarto,
Vês a criatura insana à rua,
Que enxerga através de teus olhos.

A chuva molha-me até os ossos,
Perfura ávida minha pele,
Busca meu quente sangue,
Para diluí-lo na torrente.

Recostado neste poste,
Fixo-me em tua janela,
Coberta com este vitral efêmero
Fruto deste efeito metereológico.

Ficas ainda mais linda,
Nesta soberba atitude.
Olha-me através das redondas gotas,
Sentes piedade , contudo maior é o medo.

Este coração valente,
Ribombando pelos ares,
Que encolhem até os trovões,
Assusta-te deveras.

Amar intensamente,
Como uma pavio ardente.
Até que nada mais reste,
Com as cinzas sopradas pelo vento.

Depois o vazio da fusão completa,
Como esta água que escoa nas telhas.
Venha sem sentir pânico,
Chafurdar comigo nas amorosas poças.

Vem...
Meus lábios não se abrem,
Nem verto mais rotas poesias;
O coração que transbordava
É uma árida paragem.

Todas as fontes secaram.
Ossos brancos e ressequidos na estepe
Nos olham e servem de testemunho
Do definhamento e morte das esperanças.

Ainda mantinha alegria,
Apesar de todas as tempestades,
Destruidoras e quase mortais,
Sempre havia um ciclo de reconstrução.

Agora não existe mais nada.
O pouco que restava da alma,
Ratos famintos e sedentos
Devoraram ávidos e sem piedade.

Hoje vê-se escombros e entulhos,
Por todo lado há pedaços de lembranças,
Que o tempo tratou de desbotar,
Encobrindo com sua névoa de esquecimento.

Ah, terra palpitante, borbulhando vida!
Foste tão maltratada e agredida,
Humilhada e por incêndios destruída;
Todas as vezes sem dolo, apenas culposo.
E mesmo quando era vítima, tornava-se ré.

Assim que me perco neste recanto,
Recolho cacos e tento descobrir
De qual parte da memória este pedaço saiu,
Em qual das desventuras foi formado.

Fúrias intensas e intermitentes
Arrasaram e ao chão tudo jogaram;
Gritos de dor e desespero diluiam-se
Perante os raios e trovões infernais.

É, hoje apenas desolação,
Lascas de amores, abismos de perdição.
Desfiladeiros agudos e desertos
Neste ermo que é meu coração.