domingo, janeiro 29, 2006

Meus lábios não se abrem,
Nem verto mais rotas poesias;
O coração que transbordava
É uma árida paragem.

Todas as fontes secaram.
Ossos brancos e ressequidos na estepe
Nos olham e servem de testemunho
Do definhamento e morte das esperanças.

Ainda mantinha alegria,
Apesar de todas as tempestades,
Destruidoras e quase mortais,
Sempre havia um ciclo de reconstrução.

Agora não existe mais nada.
O pouco que restava da alma,
Ratos famintos e sedentos
Devoraram ávidos e sem piedade.

Hoje vê-se escombros e entulhos,
Por todo lado há pedaços de lembranças,
Que o tempo tratou de desbotar,
Encobrindo com sua névoa de esquecimento.

Ah, terra palpitante, borbulhando vida!
Foste tão maltratada e agredida,
Humilhada e por incêndios destruída;
Todas as vezes sem dolo, apenas culposo.
E mesmo quando era vítima, tornava-se ré.

Assim que me perco neste recanto,
Recolho cacos e tento descobrir
De qual parte da memória este pedaço saiu,
Em qual das desventuras foi formado.

Fúrias intensas e intermitentes
Arrasaram e ao chão tudo jogaram;
Gritos de dor e desespero diluiam-se
Perante os raios e trovões infernais.

É, hoje apenas desolação,
Lascas de amores, abismos de perdição.
Desfiladeiros agudos e desertos
Neste ermo que é meu coração.

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