sábado, novembro 27, 2004

Antes de dar adeus a tua imagem,
Deixe-me umedecer de lágrimas o beijo,
E meu coração com esta brasa marcar.

Agora vais lentamente sumir.
Ficarei ainda um tempo por aqui,
Digerindo e dissolvendo tudo isso
E armando-me para a próxima emboscada.

Se padeço de males de amor,
Não se culpe, nem lamente.
Coração poeta é sofredor,
Por amar intensamente.

Tudo vai para o passado,
Transformado em memória.
As marcas o tempo esmaece,
Aí, apenas mais uma serás.
É chegada a hora de te esquecer,
De chorar minhas lágrimas no escuro,
De deixar o coração sangrar.

Pensei haver razão para sonhar,
Mas sonhos não são para se realizar.
Agora, ouço meus lamentos no silêncio.

Aqui nesta estrada a caminhar,
Tentarei esquecer o quanto quis te beijar,
E este sentimento inflacionado deixarei secar.

Como a tantas coisas,
Haverei desta sobreviver,
Para por outras passar.

A noite vem chegando...
A dor vai aumentando,
Sou eu tentando te esquecer.

sexta-feira, novembro 26, 2004

Minha poesia ficou muda,
As palavras já não me querem falar.
A solidão no peito aperta,
Contudo, nos olhos, lágrimas não há.

O dia faz-se em trevas,
Esperança não resiste.
Assim aguardo o tempo passar,
Na eterna cadência pendular.

A história repete-se,
Com horas amontoadas,
Nas lembranças, escombros
Da existência irregular.

Não estou a lamentar,
Nem tristezas a inventar.
Apenas sigo louco meu rumo,
Sem da vida mais nada esperar.
Fonte de inspiração,
Aonde estás?
De ti, apenas o rio,
Nunca a nascente.

De quais confins
Da alma inquieta,
Brotas tão forte
A ponto de arrebatar?

Das desilusões,
Novas ou antigas?
Da chaga aberta
No meio do coração?

Apenas sei aonde vais,
Mas nunca de onde vens.
E assim como chega,
Sorrateira, se esvai.

terça-feira, novembro 02, 2004

Crisálida, breve borboleta.
Tenho-te agora nas mãos.
Transforma-se lentamente.
Acolhi-te ainda lagarta,
Quando todos queriam te pisar.

Quando estenderes asas
Ainda frágeis e úmidas ao Sol,
E te puseres a voar...
Serei lembrança perdida,
Num turbilhão de novas sensações.


Ah, borboleta aprendiz!
Tua vida é efêmera,
De teu corpo de sílfide,
No final nada irá restar.

Ao olhar para trás,
Sentirá o sabor verde,
Tenra e saudosa infância,
Que nunca mais irá voltar.


Tiveste muitos amores,
De todos eles fui primeiro,
A começar e encerrar.
O verdadeiro e derradeiro beijo.

É que te amei até o fim,
Mesmo quando voavas livre.
No início fui teu protetor;
No fim, também sou.


O que foste minha borboleta?
Agora, um invólucro de quitina.
Oco, seco. Antes pulsava de vida,
Das asas te caem as escamas.
Esperança. Na amoreira, tuas filhas.
Ruas desertas e silenciosas,
O véu da noite me encobre.
Nos becos, vultos furtivos,
Trovadores, amantes, felinos.

Nas sarjetas os ratos,
Companheiros dos ébrios,
Apaixonados caídos em desgraça;
Humilhados pela vida.

Mas meu coração sofrido,
Ainda hoje sorriu,
De seus cacos reuniu-se.

A esperança continua,
No sorriso da amada musa,
Que livra-me de triste sina.