quinta-feira, abril 02, 2009

Bailarina

Dança a pena sobre o papel,
Em seu suave balé com o versos,
Bailando com as palavras, rodopia.

Desce pelas linhas, fluida.
Na languidez do traço do poema
Incorpora sentimentos tão tenros,
Emoções fortes e agressivas.

Com sua unha, ao pergaminho arranha,
Cava-lhe sulcos na pele macia,
Aspergindo e injetando tinta e cor,
Marcando-a como tatuagem.

Dance, salte e rodopie!
Entre os dedos de quem conduz,
Escorrendo, desfalece, reergue,
Diverte-se, esquece da métrica.

Escreves então tua música,
Em cada passo, movimento rítmico.
Não cansas no ágeis saltos,
Nem escorregas quando a inspiração se vai.

Mantem-se firme e decidida,
Ao cavalheiro que te guia neste salão
Confias cegamente teu destino,
Até que ele diga: Enfim, acabou!
Então repousas e dormes,
Até que venha a próxima dança.

quarta-feira, abril 01, 2009

Reprise

Já tanto tempo faz
Que versos não verto.
Secou-e a fontedas odes,
Nenhuma amargura ou tristeza
Veio novamente ter com o trovador.

Na casa que sempre cheia viveu,
Sempre o visitavam a Melancolia,
A Dor, a Tristeza, etéreas Musas,
Mágoa, Morte e Loucura.

Todas haviam ido para longe,
Mas não por ter vindo a Alegria.
Ficou a casa vazia e o ecos,
Lembranças do que um dia foi.

Por isso as recebo com poesia,
Ao ver no horizonte, vindo do poente,
Uma velha conhecida, perturbando-me,
Minha antiga inquilina, a Agonia.

Mais um final...

Dar cabo,
Ter um fim.
Acabar com isto,
Este viver sem viver.
Tentar outra vez,
Partindo de uma vez,
Desitir de insistir
E repousar afinal.
Colocar enfim um ponto,
Dar adeus ao que foi bom;
Agradecer pelas graças,
Beijar as desilusões.
Ir para a última página,
Encerrar esta viagem,
Abortar todos os projetos,
Respirar aliviado...
Não mais se arrepender.
Sem nenhuma derrota,
Muito menos ter vencido.
Sair incólume, sem rastros.
Cair da vida direto
Para o latão de lixo.
Descartar-se para o mundo,
Ciclagem de nutrientes.
Interromper o nada,
Eliminar a dor
Definitiva e permanentemente
Morrer.



Estou cansando...
Estou cansado!
Jogo a toalha,
É fim de jogo.

Rato

Esconde-se rato,
Vil e suja criatura,
Pelos cantos rasteja-se.
Olhos silenciosos espreitam.

Corre entre as sombras,
Observas escondido,
As luzes e o som de festa.
Rapidamente entoca-se.

Então, rato na cova,
Chora a dor por ninguém ter,
Por não ser por ninguém
Desejado, menos ainda amado.

Teus olhos assustados,
Esgueiram-se pelas paredes,
Deste porão em que moras.
É ótimo para um rato.

Criatura medrosa,
Nunca arrisca-se,
Sempre alerta,
Sempre de volta à toca.

Então, continuas tua fuga,
Criatura miserável e covarde.
Chora tuas mágoas sozinhos,
Entre todos os teus versos.