sábado, março 04, 2006

Poeta, Poeta, Poeta...
Tua pena é movida a dor.
Quando está feliz,
Nada mais te inspiras.

Mas, quando te vês na tempestade,
Sabes que irás sofrer,
Discernível é então o sorriso maroto
No teu coração masoquista.

És um escultor do sofrimento,
Esta matéria bruta e áspera,
A entalhas abnegada e arduamente,
Transformando-a em beleza e lirismo.

Se passas por camaria,
Tua embarcação vacila e não segue;
Preferes os mares revoltos e encapelados,
Trovões e raios te servem de sinfonia.

És desbravador do agreste sofrer,
Navegando caudalosos rios de pranto.
Descobres novos e ignotos recantos
Na alma escondidos pelas bonanças.

Tu és o fazendeiro da seca,
Dos períodos de morte e fome.
Pois nas épocas de chuvas e flores,
Nada consegues produzir a contento.

Qual verme na carne morta,
Transformando para que a vida continue,
És tu, poeta sofredor, chafurdando
Nas feridas das veredas do amor
Traze-me de volta a paz.
Para que eu volte a sorrir,
Mesmo quando sou desossado
E minha pele é posta para secar.

Mergulha meu espírito na tranqüilidade,
Leva-me de volta À tenra idade.
Quando os sonhos ainda estão verdes
Com promessas de serem saborosos.

Afasta-me deste venenoso fel
Que sorvo todos os dias;
Tal qual como ontem,
Amanhã ainda beberei.

Minha alma assim embebida
Neste líquido letal
Morre um pouco a cada dia,
Renascendo a cada manhã.

Por que de Prometeu a mesma sentença?
O pavor de morrer e viver
Pela eternidade sem fim,
Por pior que eu seja, não mereço sofrer.

Despedaçado espírito
Que ainda move esta carne impura,
Por que não desiste desta cruzada,
Para finalmente me deixar apodrecer?
Que desejas de mim?
Pobre alma sofredora,
Fenece a cada desilusão
Resnasce a cada ilusão.

O jogo de viver e morrer
Cansa até o mais guerreiro.
Que nas rochas busca abrigo
Quando as pernas já não lhe aguentam.

O que pretendes?
Nesta luta de luz e sombra,
Sinto-me peça de xadrez
Sem noção de meu papel.

Serei o Rei, fraco;
Ou o bispo, articulador?
O cavalo ágil e veloz,
Ou a torre sólida e letal?

Não... Sou um reles peão,
Neste tabuleiro do tamanho do mundo,
Que no jogo eterno da vida
Sabe apenas avançar e avançar.

Sempre para frente, sem pensar ou vacilar.
Move-me o sonho de chegar
Na última casa ainda vivo,
Para finalmente glorioso atacar.

Mas enquanto o momento não chega,
O derradeiro instante não acanço.
Pergunto-me sempre: Que desejas de mim?
O que pretendes? Até aonde minha vida vai chegar?
Criatura das sombras,
Habitante das brumas.
Um coração em brasa,
Numa alma cinzenta.

Envolto em mistérios,
Becos sem saída,
Em jogos mentais e psicológicos,
Envolve sem nunca se envolver.

Perdido nas trevas,
Caminha por recantos ermos,
Arrastando as correntes
Em lúgubres corredores.

Grita de dor pelas lanças
Atravessadas pelo corpo
Carcomido de tristezas,
Chagado pelos amores.

A lâmina fria e afiada,
Pela pele abrindo sulcos,
Marca definitivamente
Nos tecidos os nomes das amadas.

Uma míriade de musas,
Infinitas deusas de meu universo,
Absorvidas na densa neblina
Eternizadas no meu espírito.