domingo, maio 30, 2004

Quer mesmo saber?
Hoje não quero escrever.
Basta de palavras soltas,
Versos frouxos e perdidos.
Vem agora novo canto,
Espremido na garganta,
Despertar da revolta
Adormecida por anos.
Poeta em crise é um perigo,
Ameaça até a sombra,
Mostrando caninos,
Zombando até do amor.

Esse amontoar de palavras,
Escarradas pela pena suja,
Neste ecrán iluminado
Pelo choque de elétrons.
O que era belo,
Que fique feio.
O sentimento sublime,
Que se torne desprezo.
Bem disse o Augusto,
A mão que afaga
É a mesma que apedreja.

Então, que esperas?
Pegue a sua pedra,
Pois eu já peguei a minha.

quarta-feira, maio 26, 2004

Meu espírito quer descansar,
Em teus olhos castanhos,
Emoldurados pelo rosto sereno.

Caminhar por tua pele morena,
Entrelaçar-me em teus cabelos,
Em teus lábios me encontrar.

Mas não é só isso:

Quero ser teu porto seguro,
Que ao retornares de cada viagem
Encontres em mim baía protetora.

Te guardaria do mar bravio,
Durante as tempestades,
Sendo o firme cais aonde te fixas.

Juntos podemos alcançar estrelas,
Encontrar a tal felicidade,
Apenas nós dois, ninguém mais.

Ah, morena perfumada de flores,
És a praia paradisíaca ao sol,
Aonde eu quero viver.
"Si encuentras un amor que te comprenda
Y sientes que te quiere mas que nadie
Entonces yo daré la media vuelta
Y me iré con el sol cuando muera la tarde

Entonces yo daré la media vuelta
Y me iré con el sol cuando muera la tarde"

Media Vuelta - José Alfredo Jiménez
Tudo é questão de momento.
Para a felicidade e tristeza
É tudo relativizado,
Dependente do referecial.

Uma declaração de amor!
Sempre traz alegria.
Faz da dor, luz;
Da agonia, esperança.

Porém, se chega atrasada...
Encontra porta fechada,
Janelas lacradas
E ouve um: É tarde demais.

Quando meu amor chegou,
Teu coração olha outra direção.
Por mais carinho que tenhamos,
Nada acontece sem seu instante.

Portanto se hoje choro,
Minhas lágrimas molham o solo,
Culpa minha inteiramente,
Por ter errado o momento.
Olá, Solidão! Que bom te rever!
Afugentei-te à vassouradas,
Expulsei-a de meu coração.

É passado, seja bem vinda!
Perdoa-me os maus-tratos,
Rompantes de amor furado.

Ainda ris? Faça isto.
Zomba-me, bem que mereço
Todo o teu escárnio agora.

Vamos beber juntos de novo,
Afinal, és sempre companheira,
E comigo sempre estás.
Coração partido,
Em pedaços dividido,
Sangra lágrimas
Enquanto ainda sorri.

Sonhos construído e desfeitos,
Levados pelos ventos da realidade.
Sonhador... Imaginação infantil,
Ainda leva-me à total perdição.

Meu rival, em brilhante armadura,
Cavalga em corcel branco.
Teus olhos somente o vêem,
Fulgurando como astro-rei.

Eu, pequeno trovador,
Andarilho da noite,
Criatura das sombras,
Nada tenho, nem possuo.

Meu dom é tourear versos,
Domesticador de poemas sou.
O que é isso perante as façanhas
De príncipe dos contos de fadas?

Deixe-me encantar por tu,
Com teu jeito meigo de menina,
De delicado sorriso.
Quando falas, derreto-me.

Contudo, não arrependo-me
Em momento sequer.
Apesar de teu coração não alcançar,
E contra a parede me chocar.

quinta-feira, maio 20, 2004

Não há amor que resista,
Abandonado à própria sorte.
Necessita cuidados constantes,
Para que se mantenha florescente.

Mas quando o jardineiro,
Que habilmente o cultiva,
Perde a motivação...
Que triste final aguarda.

É largado no caminho,
Morre de inanição.
Sem cuidados, é atacado,
Por fim destruído.

A esperança agoniza,
Já não viaja em asas de sonho.
Jaz ao sol, secando.
Sobrevoam-lhes, ávidos, os abutres.

O odor pútrido da desilusão,
É o perfume que inebria.
Faze-os nas correntes bailar,
Em círculos no salão celeste.

Sinto o amargor da frustração,
Ainda assim ergo o brinde:
- A mais uma que se consumou,
Sirvam-se de meu coração, urubus!

quarta-feira, maio 19, 2004

A chama aos poucos se extingue,
A paixão nos momentos dissolve.
O amor nascente, seca lentamente,
Agonia dolorosa de sentimentos.

Lanço-me de novo ao mar,
Em busca de outras paragens,
Aonde minhas trovas sejam ouvidas,
Mas também respondidas...

Neste canto de despedida,
A tristeza dá o ritmo,
A desilusão, o compasso.
Ah, esperanças...!

Assim os laços afrouxam-se,
As pedras desencaixam.
O castelo de sonhos ruindo,
Espalha poeira na planície.

Ficam as palavras não ditas,
Os beijos não dados
E os carinhos não sentidos,
Até que o vento a tudo disperse.

Quando tudo termina,
A calmaria e silêncio reinam.
Junto os pedaços de coração,
Viro as costas e ao caminho retorno.

domingo, maio 09, 2004

Como um toureiro das palavras,
Travo uma dança mortal,
Onde um erro ou delize é fatal.

O inimigo não subestimo,
Enfrento-o com cautela,
Guerreio tenazmente.

A cada estocada da espada,
Jorram letras em sangue,
Nasce um verso da ferida aberta.

Vencida a batalha feroz,
Recolho as flores jogadas pela dama,
Que entre sorrisos saúda-me,
Honras para o audaz guerreiro.

sábado, maio 08, 2004

Como descrever a magia de um beijo?
Adentrar em mistérios delicados,
Frágeis tais como os flocos de neve.
É filosofar tolamente.

De suave e sutil toque
Ou sensualmente violento;
Beijar é uma arte,
Não só tocar lábios.

Romântico, apaixonado,
Molhado, saboroso.
Qualquer que seja o tipo,
De olhos abertos ou fechados.

Cada beijo tem sua alma,
Nasceu em um momento,
Dura o tempo suficiente,
Para morrer adocicado.

Beijo não é só beijar,
É fato, ato, luz e clima.
Assim como não se coleciona,
Também não se guarda. Usa-se.

Beijo contagia.
Basta que um apareça,
Para inúmeros outros
Surgirem como estrelas.

Não adianta buscar o perfeito.
Cada um é de um jeito,
Moldado com língua e sentimento,
Cada um é único e soberbo.
Em minhas andanças por essa terra,
Que é populosa e árida,
Pois cada qual carrega seus problemas,
Alimentando tantas ilusões,
Encontrei e fui encontrado,
Virando uma esquina perdida,
Esbarrei ou fui esbarrado?
Já não lembro.
Mas gravou-me para sempre,
O sorriso que me lançaste,
E as palavras que me disse.
Andava distraído,
Lançando minhas trovas.
E ia por caminhos ermos.
Agora, carrego tua lembrança,
Meus versos tem destino
E o meu coração, dona.
Contudo, a vi somente,
Numa noite escura e nebulosa,
De teu rosto não sei traço.
Os dias foram passando,
Em minha mente confusa neguei,
Parece loucura isso acontecer,
Apaixonar-me assim por ti.
Se é assim ser louco,
Amarrem-me à camisa-de-força,
Pois não quero ser curado.
Se estivesses aqui...
Meu sorriso seria perene,
Já não mais dependeria,
De ilusões vãs, pois viveria em sonho.

Se eu pudesse alcançar-te,
Sentir aqui o teu corpo,
O delicado aroma de tua pele,
Inebriando-me de amor.

Ah, se estivesses aqui...
Não seria a Musa de devaneios,
Mas a mulher real e completa,
A quem sempre me dedicaria.