domingo, abril 11, 2004

Pelas noites tenho andado,
Seguindo nas vielas e becos,
Com meu olhar oitocentista,
Com tabernas e janelas enluaradas.

Mas hoje será diferente,
Caminhando pelas ruas,
Vejos sob marquises e teleiros,
Sacos e montículos agrupados.

Passaria por lixo do dia,
Contudo, ali dorme, encolhido,
Coberto com saco plástico,
Um outro homem como eu.

Ao seu lado uma carroça,
Movida à tração humana.
É a garantia do parco sustento.
Um cão magro monta guarda.

Os carros correm velozes,
Ao verem minha sombra
Mais rápido passam, com medo
Escondendo-se com vidros negros.

Jovens alegres e alcolizados,
Voltam das baladas divertidas,
Fazendo pegas e zoando.
Passam pelo mulambo que dorme e...

Meus passos avançam rápido,
Deparo-me em uma esquina mais escura,
Recostada a um poste cinzento,
Uma silhueta sinistra espera clientes.

Um dos veículos pára,
Em uma rápida troca de objetos,
O traficante leva seu dinheiro,
O motorista as suas drogas.

Cruzo por ele sem elevar os olhos,
Evitando qualquer maior contato.
Olha-me desafiadoramente,
Mas escapo do conflito.

Minha capa está manchada,
Das impurezas que preenchem a noite.
De podridão humana
Torna-se fétida minha poesia.

Sou um andarilho e continuo.
Atravessando uma praça silenciosa.
Nos bancos, pequenos corpos sob a luz fria,
Enrolados em trapos imundos.

Suas formas são de crianças,
Mas a realidade endurece o coração.
Até os mais mansos são dobrados,
Seus olhos destilam agressividade.

A cidade ainda não submergiu nas brumas,
Nas avenidas movimentadas
A prostituição fervilha com vai-vem,
Corpos em exibição contínua.

Homens e mulheres infelizes,
Vendendo suas carnes e dignidade,
A título de sobrevivência,
Vivendo no limiar da violência.

No véu roto da escuridão,
Há fome e miséria,
Desilusão e amargura,
Nas lágrimas solitárias.

Pois ainda há quem chore,
Escondido pelas trevas,
Não demonstra sua fraqueza.
Há fragilidade nestas fortalezas.

Meu coração encolhe-se,
Envergonhado por não ver,
Noite após noite, incessante,
Em todas essas caminhadas.

Assim são as noites...
Sem romantismo ou lirismo.
Estes existem na pena do poeta,
Transfigurador da realidade.

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