TESTAMENTO
Esta é a última noite.
De tantas que já vivi,
É chegado o derradeiro momento,
De preparar meu Requiem.
Estas palavras que dito,
Não há nenhuma especial,
São vontades de falecido,
Que alguém cumpre se quiser.
Não desejo lágrimas,
Já bastam todas as minhas;
Quero vinho e festa,
Narizes vermelhos, feições embriagadas,
Quando o corpo à terra baixar.
Se passo pela vida,
Sem marca importante deixar,
Realmente não lamento,
Será apenas mais um sonho
Dos muitos que não vão se realizar.
Foram tantos e tantos,
Impossíveis de contar,
Como os grãos de areia da praia,
Em que uma vez me fiz ao mar.
Não posso mais voltar,
Do caminho me perdi,
Há muito tempo atrás.
No mar da esperança,
Confiando sempre que iria mudar.
Enfrentei algumas tormentas,
Nem tão fortes como sempre achei.
Houveram tempos de bonança,
Bons ventos e boa pesca.
Entretanto na maior parte do tempo,
Encontrei a odiosa calmaria,
Que faz as horas passarem lentamente,
Minando toda a vontade,
Enlouquecendo aos poucos.
Muito tarde foi que descobri,
Quem faz o barco navegar,
Somos nós que sopramos as velas,
Fazendo o rumo mudar.
Deixa para lá, não quero que a poesia,
Torne-se enorme ladainha.
Meu testamento literário é este,
Portanto tentarei ser breve.
Breve como a gota de chuva, fugaz,
Essa que tanto me atrai.
Almejei tanto a claridade,
Mas a noite vem sempre ter comigo.
O sol vejo esporadicamente,
As sombras as tenho eternamente.
Bem, é a hora da partilha,
Para quem deixarei meus bens,
O que tenho de mais precioso,
Não passam de trastes para outrem.
Esse poema indecoroso,
Chega por fim ao sonhado auge,
A pena quer silenciar,
Ao apagar das velas.
Para ti, Lua companheira,
Deixo minha eterna gratidão,
Pois iluminaste minhas tristezas,
Com teus cabelos prateados.
Às minhas irmãs Estrelas,
Pela sua compreensão,
Em acalentarem-me na solidão,
Por receberem meu pranto,
Pago com minha eterna devoção.
A vocês, Sombras noturnas,
Deixo meu coração desgastado,
Que tanto almejaram.
Alimentem-se fartamente.
Aos companheiros de taberna,
Nas horas de boemia,
Deixo-lhes as finas taças,
Sirvam-se de meus vinhos,
Com condição de nunca abandonar,
Os lamentos e alegrias da Poesia.
E a tu, minha querida Noite,
Tanto te adoro quanto temo,
Com seus incontáveis mistérios,
Esconde a todos no véu da escuridão.
Que mais posso deixar para ti,
Além do meu espírito errante,
Que não encontra pouso ou descanso?
O aceite em teu seio,
Para que o corpo durma em paz,
É o que mais desejo,
Viver em ti eternamente.
Minhas adoradas Musas,
Não, não as esqueci.
Vós me sois tão especiais,
Que as deixei para o grand finale!
Quem tanto me inspirou,
Mereceis o que tenho de melhor;
Deixo-vos todas as minhas trovas,
Até as ainda não escritas,
São canções amorosas,
Declarações eternas e momentâneas,
Por vós abrilhantadas.
Nada mais justo então,
Que as recebeis e guardai se interessar;
Ou as espalhem por aí, ao ar.
Façam o que quiser.
É o momento de encerrar.
O "Dies Irae" já se foi,
Minha Missa dos Mortos
Se encontra no "Agnus Dei".
Minha boca irá se calar,
Meus sentimentos silenciar.
A pena irá repousar,
Sem mais arranhar o papel.
São as últimas notas,
Nos reflexos dos estertores.
Já estou cansado,
Meu tempo se esgotou,
Aqui encerro meu epitáfio,
Cujo resumo escrevi há quase dez anos.
Vai escrito na mais fria lápide,
Com mármore de desilusão.
Adeus amadas de minha vida,
Perdoa se não as alcancei.
Tentei. Ah, isso eu tentei!
Se não fui feliz, não as culpo,
Ninguém rasura a escrita do Destino.
Enfim, o derradeiro silêncio...
Assinar:
Postar comentários (Atom)


0 comentários:
Postar um comentário